Os justos pagam pelos pecadores

Desde 2014, com a deflagração da Operação Lava-Jato, o Brasil vive uma triste e deplorável sequência de escândalos de corrupção na política, que vem trazendo a tona inúmeros esquemas de desvio de recursos públicos, concessões fiscais indevidas, gastos públicos excessivos, tráfico de influências e uma infinidade de práticas criminosas, envolvendo inclusive corporações privadas. Vide recentes casos das delações de executivos da da Odebrecht e da JBS/Friboi.

Essa crise política, que parece não ter fim, causa sérias repercussões negativas na economia do País. Tanto é que, apesar de um leve recuo de 0,2% na taxa de desemprego referente ao trimestre móvel encerrado em julho, já ultrapassamos a casa dos 13 milhões de desempregados, número que ainda sim figura entre um dos maiores nos últimos cinco anos, segundo o IBGE.

Outro recorde negativo é o da quantidade de empresas que estão entrando com pedido de recuperação judicial. De acordo com Indicador Serasa Experian de Falências e Recuperações, em 2016, foram requeridos 1.863 pedidos de recuperações judiciais, 44,8% a mais do que o registrado em 2015. O resultado é o maior para o acumulado do ano desde 2006, após a entrada em vigor da Nova Lei de Falências (junho/2005).

Mas como e por quê uma crise política e de imagem, a qual vive o nosso País, afeta tão diretamente o dia a dia das empresas, que a cada nascer do sol lutam honestamente e com afinco pela sobrevivência de seus negócios? Não se envolver com ilegalidades e focar no trabalho não seria suficiente para se colher bons resultados? Não é bem assim…

O primeiro feito é a crise acontece nas próprias contas públicas e a diminuição de investimento público em obras e projetos, que são importantes para girar a economia. Sobe o “custo Brasil” que faz pesar a máquina administrativa brasileira. A queda na credibilidade das instituições brasileiras também afugenta investimentos vindos de fora do País. Grandes empresas internacionais são, e precisam ser, extremamente assertivas em suas estratégias, por isso, recuam frente cenários incertos.

Para se ter uma ideia de como nossa imagem está arranhada lá fora, em 2016, por exemplo, a Fitch, uma das principais agências internacionais de avaliação de risco de investimentos, rebaixou no mês de maio daquele ano a nota do grau de investimento do Brasil, de BB+ para BB, o que significa que o País entrou para o hall das nações com alto risco de investimento.

O rebaixamento veio no auge das denúncias contra a então presidente Dilma Rousseff. Recentemente, com a divulgação de notícias de novos escândalos de corrupção, dessa vez envolvendo o atual presidente da República, Michel Temer, e o Grupo JBS/Friboi, multinacional brasileira que hoje é um dos principais fornecedores de proteína animal no mundo, a Fitch manteve tal nota de alto risco de investimento.

Sob o ponto de vista do mercado interno, o efeito mais nítido, além do crescimento do desemprego, é o encarecimento do crédito. Num cenário de incertezas, os bancos são os primeiros a fecharem as “torneiras” como uma medida de autopreservação. Isso porque, de acordo com o Acordo Internacional de Basiléia, os bancos têm de dar provisão aos empréstimos. Para cada unidade de valor emprestada, é preciso depositar a mesma quantia como garantia. Em casos de recuperação judicial, em que as dívidas acabam sendo renegociadas com desconto, os bancos credores acabam tendo de assumir essa diferença.

Um exemplo emblemático é o grupo OI do setor de telefonia, que entrou em recuperação judicial com uma dívida de R$ 65 bilhões, a maior da história desde a regularização da Lei de Recuperação Judicial no Brasil, em 2005. A empresa é a maior operadora em telefonia fixa do País e a quarta em telefonia móvel, com cerca de 70 milhões de clientes. Dessa fatia, os bancos são credores de quase R$ 9 bilhões e, provavelmente, eles não receberão tudo o que emprestaram.

Na prática, significa dizer que, quanto mais empresas entram em crise, mais aumenta o risco de os bancos terem prejuízos. A reação imediata é fechar as torneiras do crédito para todo o mercado e, assim, evitar mais perdas. Os pequenos e médios empresários – que são os que mais empregam nesse País e dependem de fomento – acabam ficando órfãos de recursos e interrompem projetos de expansão, fazem cortes nos gastos e até demitem.

A roda para de girar. Os justos pagam pelos pecadores.

Obviamente, apesar da sensação de desânimo e pessimismo diante de tantos desmandos nas instituições públicas do nosso país, seja no âmbito do Executivo, Legislativo ou Judiciário, os empresários brasileiros não podem se dar o luxo de ficarem de braços cruzados, a espera de uma solução para a crise política. As contas e despesas chegam todos os dias, e infelizmente, nossa classe política não irá melhora da noite para o dia. E aí vem a inevitável pergunta: o que fazer?

A curto e médio prazo a solução pode estar no que muitas empresas já estão fazendo para fazer frente a crise: usar uma boa dose de criatividade, um grande esforço por parte de todos – empresários e trabalhadores – e um rigoroso e detalhado planejamento. Algo que já se tornou um discurso recorrente: fazer muito mais, com muito menos recursos.

Mas a longo prazo, acredito que a solução passe por uma coletiva mudança de mentalidade em relação a nossa postura como cidadãos. Culturalmente, sempre tivemos uma postura de apatia diante da política, talvez pelo histórico de corrupção e escândalos do nosso País. Contudo, essa postura só contribui para perpetuar os maus políticos no poder. Mesmo diante de tantas decepções, não podemos, de forma alguma, abrir mão de nosso direito de sermos protagonistas de nossa própria história, de assumirmos nossa responsabilidade pelos rumos do Brasil.

Portanto, o caminho é esse despertar para conscientização das pessoas acerca de seu papel como cidadão. Falando no assunto, você se lembra em que votou nas eleições passadas? Já experimentou passar um e-mail para ele e pedir um posicionamento dele acerca de seus últimos passos? Pode ser um bom começo.

Fonte: http://www.empreenderemgoias.com.br/2017/09/12/os-justos-pagam-pelos-pecadores/

Autor: Marcelo Camorim – Diretor Fox Partners

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